Dispossessed

(Imagem: Link)


Sentimo-nos desapossados de todos os bens, materiais, imateriais, tudo, enfim

e nem tempo temos para parar e questionar-nos: como é possível termos chegado a este ponto?

Está em marcha uma corrida louca, do tempo contra nós próprios, e não há esquinas que nos protejam das chamas de um inferno real que nos consome,

por mais geladas que estejam,

por mais vontade que tenhamos de as deixar amenizar as fúrias que nos controlam...

Necessitamos urgentemente de um néctar qualquer que nos permita continuar, mas não sabemos de onde desenterrá-lo...

Será possível extrair ao vazio a essência da vida?

Outra coisa não fazemos senão tentar, e falhar, uma e outra, e mais outra vez,

até que cansados de arrastar os pés sangrentos,

nos daremos por vencidos num descampado qualquer, debaixo de um luar qualquer num lugar qualquer.

E quando prostrados no chão vazio, teremos então ao alcance das nossas mãos as raízes putrefactas de uma vida sem norte,

para que possamos então arrancá-las e descansar,

nos braços de um silêncio qualquer.

Por fim...

 

Dunkelheit



Quer brote do caos absoluto ou de um segundo de introspecção ao acaso, consome-nos sempre com a mesma intensidade, àqueles que dela nascemos e com ela vivemos, até que um dia

a escuridão.

É quase indefinível, por natureza. Como adjectivar o infinito? Temo-la demasiado entranhada nas profundezas do ser, afoga-nos impiedosamente antes sequer de pensarmos em dar umas braçadas em direcção à salvação...

Não sei nadar.

O sangue ferve e não há banho de gelo, antibiótico ou gesto de bondade alheia que o impeçam de se consumir, de dentro para fora, que de fora para dentro não vem nada,

é um infinito de continuidades que me abafa,

e o ar irrespirável inundado de promessas quebradas, envenenado pelas minhas próprias mãos. Com que direito me posso queixar a alguém?

Um poço sem fundo de inóspito vazio: é o que nos espera a cada virar de esquina, a cada dia que vivemos, nós que somos seres amorfos à espera de qualquer coisa que nos salve,

sabemos lá nós bem do quê...

Não temos salvação.

Deixe-mo-nos, pois, de devaneios, e cinja-mo-nos aos factos: só temos uma escolha a fazer, e com ela haveremos de viver ou deixar morrer...

Continuamos?